quinta-feira, 5 de abril de 2007

Ratada

Naquele dia, sabia que era obrigatório ter um cuidado redobrado. Em Vila Franca de Xira seria apenas um simples haole. Aquele não era o meu terreno, e como tal, teria sempre essa desvantagem contra mim. No street racing, conhecer bem as ruas, o trânsito, os peões, os obstáculos, é fundamental para se ter sucesso num picanço.
No largo da estação olhei em redor demoradamente. Vi de que lado estava o sol, e o vento, qual o tipo de pavimento e com que género de fauna me iria embrenhar. Logo ali no meu campo de visão reconheci alguns potenciais adversários, mas ainda era cedo. Havia primeiro que localizar o meu destino, antes de me pôr por ali à toa hostilizando os locais.
Saio do largo em direcção a sul. Passados poucos metros vejo um racer de frente para mim. De imediato nos identificámos como iguais. Também de imediato verificámos que um despique estava fora de questão. O street racing tem poucas regras, mas as que existem são cumpridas com estatuto de código de honra. Carros vazios com carros vazios, carros cheios com carros cheios. Quando isto não se verifica, o que resta é uma paixão comum e uma vaga ideia de camaradagem. Interpelei-o amigavelmente: “Desculpe, podia dizer-me onde é o mercado?”. Ele explicou com o detalhe necessário. Agradeci e seguimos os nossos caminhos, cada um na sua direcção.
Ao virar uma esquina constatei que tinha acedido a uma das principais vias de acesso ao local que era o meu destino. Dezenas de potenciais adversários circulavam em ambos os sentidos numa profusão de cores e sons. Era para isto que eu aqui tinha vindo. Comparado com este ambiente, a Azambuja era um deserto. Agora sei o que deve sentir um surfista que sai de Ribeira d’Ilhas e aterra no Banzai Pipeline.
Segui o meu caminho, tentando acalmar-me do impacto com aquela confusão desconcertante. Como um leão no meio de uma manada de gnus em fuga caótica, teria de identificar e isolar a minha presa. Essa seria a primeira tarefa. Foi então que a vi, vestida de negro junto com o seu carro azul-escuro. Para quem não conhece o meio, este tipo de racers engana com o seu look de velhinha esclerosada. Na realidade são adversários temíveis e perigosos. Os seus anos de experiência transformam o carro numa extensão do próprio corpo, e as performances são normalmente surpreendentes, resultado de várias preparações ao nível da mecânica.
Aproximei-me sorrateiramente e quando estava lado a lado, olhei-a de soslaio lançando-lhe o repto: “Então, essa caliqueira não dá mais?”. O resultado foi imediato. Rapidamente cerrou as mãos aos comandos do carro, franziu o sobrolho, e reagiu acelerando rapidamente. Fui no seu encalço. É das minhas tácticas preferidas. Seguir atrás, estudando bem o adversário e pressionando-o psicologicamente. Identificar bem os pontos fracos e os fortes. Neste caso ela tinha um carro bem mais leve e ágil, mas o meu era mais potente e estável, depois ela tinha uma vantagem que poderia revelar-se decisiva. Fruto da sua condição de local, aliada àquela falsa aparência de avozinha do capuchinho vermelho, toda a gente lhe dava prioridade à passagem, enquanto eu, na condição de estrangeiro, e fruto do ar de puto mal encarado com barba por fazer, era sistematicamente barrado por peões e condutores.
Já com a meta a prenunciar-se no final da rua, desfiro o meu ataque. Aproveito o cone de aspiração e lanço-me para o meio da via na almejada ultrapassagem. Ela reage tentado albarroar-me. Espremo tudo o que a mecânica tem para dar. Os pneus protestam à medida que galgo passeios sempre a fundo. Carros e transeuntes são agora apenas pontos que passam rapidamente no meu cenário. Evito por pouco duas colisões frontais. Com a meta à vista olho para trás e constato que neste último sprint devo ter ganho uns confortáveis 10 segundos de avanço. Estaciono o meu GT imbatível, preparo a máquina fotográfica e clic: mais uma ratada para a posteridade.

Sem comentários: